segunda-feira, 12 de abril de 2010

Eu vi o Halley em 2062 - Luís Fernando Veríssimo

Eu vi o Halley em 2062
 de Luís Fernando Veríssimo
Estamos no ano 2062. Você eu não sei, mas eu estou. Anuncia-se a nova passagem do cometa Halley. As agências de viagem oferecem excursões aos postos de observação espacial na Lua, que pertence às organizações Disney, por US$ 500, incluindo a parte lunar. Com a poluição na Terra, os postos de observação na Lua são os únicos lugares em que ainda se podem ver as estrelas — e a própria Lua. A poluição é tanta que o presidente dos Estados Unidos, George Bush, cuja idade avançada inspira cuidados especiais, foi colocado numa redoma de plástico suprida de oxigênio e sem qualquer comunicação com o mundo exterior, o que o impede de governar mas não de posar para as câmeras. O impedimento temporário do presidente é um alívio para muitos. Ninguém esquece suas sucessivas gafes, culminando em 2058 com sua ordem para a invasão da Bolívia, que já estava em curso quando ele se deu conta e corrigiu: "Bolívia, não. Venezuela. Venezuela!" A poluição é tanta que no maior país capitalista do mundo, a China — ou Grande Hong Kong, como passou a ser chamada em 2025 —, as máscaras de oxigênio vendem mais que o Big Mac, e a marca Cardin é a mais popular. Apesar da aparente prosperidade, a superpopulação é um desafio para a sanidade dos cidadãos. Um em cada dois chineses acha que o outro devia morrer. Em todo o mundo, de Tutuland, ex-Africa do Sul, a Las Vegas, na costa do Pacífico dos Estados Unidos — ou o que passou a ser a costa do Pacífico depois que a Califórnia e o México deslizaram para dentro do mar no grande terremoto de 2011 —, o excesso de gente é um problema, agravado pelas hordas de robôs desempregados, substituídos nos seus postos nas linhas de montagem por sucessivas gerações de robôs mais sofisticados, que perambulam pela Terra, aceitando qualquer emprego, de lavadores de carros a vigias, assaltando, fazendo arruaça, levantando saias etc. No Brasil, depois do contrato assinado em 2016 pelo governo com a Rede Globo, encarregando-a da produção e direção do Brasil durante um século, inclusive colocando gente do seu elenco nos papéis de presidente e ministros e substituindo planos do governo por um roteiro cheio de peripécias e situações cômicas e dramáticas, mas que acaba bem, foi vencida em parte a crise desencadeada com a renúncia da presidente Manuela D'Avila em 2022, mas um assunto polêmico volta a ameaçar a estabilidade política: a reforma agrária. Com o retorno do cometa Halley, todos lembram, divertidos, o que se dizia quando o cometa passou pela Terra da última vez, em 1986. Que ele dava azar, que as coisas iam piorar depois da sua passagem. Como éramos supersticiosos!

1 Comentários:

halana disse...

Adoro Lúís Fernando Verissímo
estou estudando crônicas na minha escola E.M.E.B Demétrio Rodrigues Pontes as que eu mais gosto são : A sexa, O lixo e o Homem trocado...